Primeiro capítulo do livro "O Signo dos Quatro", aventura de Sherlock Holmes.
Confira!
Capítulo Um:
A ciência da dedução
— O meu cérebro — disse Sherlock Holmes — se revolta contra a estagnação.
Dê-me problemas, dê-me trabalho, dê-me o mais abstruso criptograma, ou a
mais intrincada análise, e estarei no meu elemento. Detesto a rotina monótona
da existência. Preciso ter a mente em efervescência. E por isso que escolhi a
minha profissão especial, ou melhor, criei-a, porque sou o único no mundo a
exercê-la.
— O único detetive particular? — perguntei, erguendo uma sobrancelha.
— O único detetive particular consultivo — redargüiu ele. — Sou o mais alto
tribunal de apelação em matéria de pesquisa criminal. Quando Gregson, ou
Lestrade, ou Athelney Jones se vêem em maus lençóis, como aliás é o seu
estado normal, o assunto é apresentado a mim. Examino os dados como um
técnico e dou um parecer de especialista. Não procuro honras nesses meus
trabalhos, O meu nome não aparece nos jornais. O trabalho em si, o prazer de
encontrar um campo para as minhas faculdades específicas, é a única
recompensa que pretendo. De mais a mais, você já teve algum contato com os
meus métodos de trabalho no caso de Jefferson Hope.
— É verdade — confirmei com entusiasmo. — E me impressionaram de tal
modo, que até condensei o assunto numa pequena brochura com o título meio
fantástico de Um estudo em vermelho.
Holmes abanou a cabeça tristemente.
— Passei os olhos por ela — disse ele. — Sinceramente, não posso felicitá-lo.
A investigação é, ou devia ser, uma ciência exata e, como tal, tratada de
maneira fria e sem a menor emoção. Você procurou lhe dar certo colorido
romântico, o que produz o mesmo efeito de uma história de amor ou de um
rapto transformados na quinta proposição da geometria euclidiana.
— Mas havia algo de novelesco — repliquei. — Eu não podia alterar os fatos.
— Deviam ter sido suprimidos alguns fatos, ou, pelo menos, tratados com um
justo senso de proporção. Em todo esse caso, o único ponto que merecia
referência é o curioso raciocínio analítico dos efeitos até as causas, por meio
do qual eu consegui desvendá-lo.
Essa crítica a um trabalho feito especialmente para lhe agradar me aborrecia
muito. Confesso também que me irritava aquele seu egoísmo, que parecia
exigir que todas as linhas do meu livro fossem dedicadas exclusivamente às
suas proczas. Mais de uma vez, durante os anos vividos com Holmes na Baker
Street, tive ocasião de observar que uma pequena vaidade se escondia sob as
suas maneiras discretas e didáticas. Não fiz, todavia, qualquer comentário, e
continuei calado na minha cadeira, ocupado em tratar da minha perna ferida.
Havia algum tempo que a bala de um mosquete afegão a tinha atravessado de
lado a lado, e, embora eu pudesse caminhar, ela me doía bastante sempre que
o tempo mudava.
— A minha clientela está se estendendo pela Europa — disse Holmes, após
alguns momentos, enchendo o seu velho cachimbo de raiz de roseira. — Fui
consultado na semana passada por François le Villard, que ultimamente,
conforme você talvez saiba, tem adquirido algum renome no serviço francês de
investigações. Ele possui a rápida intuição dos celtas, mas falta-lhe a grande
bagagem de conhecimentos exatos, essencial para um maior desenvolvimento
da sua arte, O caso relacionava-se com um testamento e tinha alguns aspectos
interessantes. Tive oportunidade de relacioná-lo com dois casos paralelos, um
em Riga, em 1857, e outro em St. Louis, em 1871, os quais lhe sugeriram a
solução exata. Aqui está a carta que recebi esta manhã, agradecendo o meu
auxílio.
Ao dizer isso, atirou-me uma folha amarrotada de papel de carta estrangeiro.
Passei os olhos por ela, notando os abundantes pontos de exclamação e os
“magni/iques”, “coa p5 de maitre” e “tours de /orce” que a pontilhavam, tudo
denotando a ardente admiração do francês.
— Fala como de aluno para mestre — observei.
— Oh!, ele valoriza demasiado a minha assistência — disse Sherlock Holmes
com indiferença. — Também ele tem um apreciável talento. Possui duas das
três qualidades necessárias para um detetive ideal. Tem a capacidade de
observação e a de dedução. Só lhe faltam os conhecimentos, que poderá
adquirir com o tempo. Está traduzindo para o francês os meus pequenos
trabalhos.
— Os seus trabalhos?
— Oh! você não sabia? — perguntou Holmes, rindo. — Sim, sou culpado de
várias monografias. Todas versam sobre assuntos técnicos. Esta, por exemplo,
intitula-se: “Da diferença entre as cinzas de vários tabacos”. Nela enumero
cento e quarenta tipos de tabaco usados em charutos, cigarros e cachimbos,
com lâminas coloridas que ilustram a diferença entre as cinzas. E um ponto
que vem constantemente à baila nos processos criminais e que às vezes é de
suprema importância como indício. Se você puder dizer positivamente, por
exemplo, que determinado crime de morte foi praticado por um homem que
estava fumando um charuto de tabaco indiano, é óbvio que isso reduz o campo
das pesquisas. Para um olho experimentado, há tanta diferença entre as cinzas
pretas de um Trichinopoly e as brancas de um Caporal como entre uma couve
e um tomate.
— Você tem um gênio extraordinário para as minúcias — observei.
— Apenas avalio a sua importância. Eis aqui a minha monografia sobre o
levantamento de pegadas, com algumas notas sobre as impressões. Este, por
exemplo, é um curioso trabalhinho sobre a influência do ofício na forma da
mão, com litografias das mãos de ardosieiros, marujos, corticeiros,
compositores, tecelões e lapidadores de diamantes. E um assunto de grande
interesse prático para o detetive científico. . . principalmente nos casos de
corpos não-identificados, ou para descobrir os antecedentes dos criminosos.
Mas estou aborrecendo-o com a minha mania.
— De modo algum — contestei sinceramente. — Isso é do maior interesse
para mim, principalmente depois que tive a oportunidade de lhe observar a
aplicação prática. Mas você falava há pouco de observação e dedução. Até
certo ponto uma implica a outra, não é verdade?
— Não, senhor. Só raramente — respondeu ele, recostando-se
voluptuosamente na sua cadeira, e tirando do cachimbo finos anéis de fumaça
azulada. — Por exemplo, a observação me mostra que você esteve esta
manhã na agência postal da Wigmore Street, mas a dedução me faz saber
que, ao chegar lá, expediu um telegrama.
— Correto — exclamei. — Correto em ambos os pontos! Mas confesso não
perceber como possa ter chegado a isso. Foi uma coisa que de repente me
deu na telha, e não a mencionei a ninguém.
— Pois é a própria simplicidade — afirmou ele, rindo da minha surpresa. Tão
absurdamente simples que torna supérflua qualquer explicação. Contudo, pode
servir para definir os limites da observação e da dedução. A observação me diz
que você tem um pequeno torrão avermelhado preso à sola do sapato.
Exatamente em frente à agência postal da Wigmore Street, abriram a calçada,
deixando um pouco de terra no caminho, de forma que é difícil não pisá-la ao
entrar. A terra é de um vermelho típico, que, até onde sei, não se encontra em
qualquer outro lugar das redondezas. Tudo isso é observação. O resto é
dedução.
— Como deduziu, então, que mandei um telegrama?
— Ora, evidentemente, eu sabia que não tinha escrito uma carta, uma vez que
passei toda a manhã sentado à sua frente. Vejo, além disso, que há uma folha
de selos na sua escrivaninha e um grosso maço de postais. Para que iria,
então, à agência postal, senão para mandar um telegrama? Elimine todos os
outros fatores, e o que restar deve ser a verdade.
— Nesse caso, não há dúvida de que é assim — repliquei, depois de meditar
um instante. — Trata-se, como diz, de uma coisa muito simples. Seria
impertinência minha se submetesse as suas teorias a uma prova mais
rigorosa?
— Pelo contrário — respondeu ele. — Isso me impediria de ficar entediado
algum tempo. Terei o maior prazer em examinar qualquer problema que me
apresente.
— Já ouvi dizer que é difícil um homem ter consigo um objeto de uso diário
sem deixar nele a marca da sua individualidade, de tal modo que um
observador experimentado é capaz de interpretá-la. Pois tenho aqui um relógio
que veio recentemente parar às minhas mãos. Quer ter a bondade de me dar a
sua opinião sobre o caráter e os hábitos do último proprietário?
Entreguei-lhe o relógio não sem uma certa malícia, pois julgava impossível
semelhante prova, e pretendia que isso lhe servisse de lição contra o tom um
tanto dogmático que ele às vezes assumia. Holmes avaliou o peso do relógio
com a mão, olhou atentamente o mostrador, abriu a tampa traseira e examinou
o mecanismo, primeiro a olho nu e depois com uma poderosa lente convexa.
Mal pude reprimir um sorriso diante do seu rosto descoroçoado quando
finalmente o devolveu a mim.
— Quase não há elementos — observou ele. — O relógio foi limpo
recentemente, o que me roubou os fatos mais sugestivos.
— Tem razão — disse eu. — Fizeram uma limpeza geral antes de o enviarem a
mim.
No íntimo, eu acusava o meu companheiro de esconder o seu fracasso sob
a mais comum das desculpas. Que elementos poderia ele encontrar num
relógio sujo?
— Apesar de pouco satisfatória, a minha pesquisa não foi de todo infrutífera
observou ele, fitando o teto com os olhos sonhadores e sem brilho. — Se não
me disser o contrário, julgo que o relógio pertenceu ao seu irmão mais velho,
que o herdou de seu pai.
— Deduziu-o, sem dúvida, do "H. W.' gravado nas costas?
— Exatamente. O W. sugere o seu nome. A data do relógio é de cinqüenta
anos atrás, e as iniciais são quase tão antigas como o relógio: logo, foi usado
pela última geração. As jóias geralmente passam para o filho mais velho, e é
muito provável que este tenha o mesmo nome do pai. Seu pai, se bem me
lembro, faleceu há muitos anos. Por conseguinte, o relógio estava nas mãos do
seu irmão mais velho.
— Até aqui, tudo certo — disse eu. — Alguma coisa mais?
— Ele era um homem de hábitos desordenados... muito desordenados e
descuidados. Iniciou a vida com boas perspectivas, mas desperdiçou as
oportunidades, viveu algum tempo na pobreza, com intervalos ocasionais de
prosperidade, e por fim, entregando-se à bebida, faleceu. Isto é tudo o que
posso deduzir.
Pulei da minha cadeira e pus-me a coxear impacientemente pela sala. Aquilo
me fazia doer o coração.
— Isso não é digno de você, Holmes — disse eu. — Nunca o teria imaginado
capaz de descer tanto. Decerto andou fazendo indagações sobre a história do
meu infeliz irmão, e agora finge ter deduzido de um modo abstruso aquilo que
já sabia. Você não pode esperar que eu acredite nas suas palavras quando me
diz que leu tudo isso nesse velho relógio! E cruel e, para falar com toda a
franqueza, raia ao charlatanismo.
— Meu caro doutor — disse ele afavelmente —, queira aceitar o meu pedido de
desculpas. Encarando o assunto como um problema abstrato, esqueci que era
uma coisa íntima e dolorosa. Asseguro-lhe, todavia, que nem ao menos sabia
da existência do seu irmão até o momento em que examinei o relógio.
— Mas então, em nome de tudo quanto é fantástico, como obteve esses fatos?
São absolutamente corretos em todos os pormenores.
— Ah! Isso foi sorte. Só expus o saldo das probabilidades. Não esperava
tamanha precisão.
— Mas não foi apenas pura adivinhação?
— Não, não. Jamais arrisco um palpite. Isso é um hábito chocante... fatal para
a capacidade de raciocinar logicamente. O que lhe parece estranho o é apenas
porque você não acompanhou a linha do meu pensamento nem observou
pequenos fatos dos quais se podem tirar grandes deduções. Por exemplo,
comecei por certificar-me de que seu irmão era descuidado. Observando a
parte inferior da caixa desse relógio, notará que ela não está gasta apenas em
dois lugares, mas está toda amassada e arranhada: conseqüência do hábito de
guardar objetos duros, tais como chaves ou moedas, no mesmo bolso.
Decerto, não é grande façanha supor que um homem que trata tão
desdenhosamente um relógio de cinqüenta guinéus seja um homem
descuidado. Também não é muito rebuscada a dedução de que uma pessoa
que herda um objeto de tamanho valor não esteja bem provida noutros
sentidos.
Inclinei a cabeça para mostrar que acompanhava o seu raciocínio.
— Nas casas de penhor da Inglaterra é muito comum gravarem o número da
caução, com um alfinete, na parte interna da tampa. É mais prático do que uma
etiqueta, e não há perigo de que o número seja trocado ou perdido. Há pelo
menos quatro desses números visíveis para a minha lente, no interior dessa
tampa. Dedução principal: seu irmão via-se freqüentemente em apuros
financeiros. Dedução secundária: ocasionalmente melhorava de vida, pois, do
contrário, não poderia resgatar o penhor. Finalmente, peço-lhe que olhe para a
tampa interna, onde fica o buraco da chave. Veja os milhares de arranhões em
torno dele... são marcas deixadas pela chave, ao escorregar. A mão firme de
um homem sóbrio nunca teria feito esses sulcos. Mas podem-se vê-los sempre
no relógio de um bêbado. Quando lhe dá corda, à noite, tem a mão insegura.
Onde está o mistério disso tudo?
— É claro como o dia — respondi. — Lamento a injustiça que lhe fiz. Devia ter
tido mais fé nas suas maravilhosas faculdades. Posso perguntar-lhe se
atualmente tem alguma pesquisa em mãos?
— Nenhuma. Não posso viver sem trabalho mental. Haverá outra coisa pela
qual valha a pena viver? Olhe para a janela. Já houve um mundo tão vazio, tão
cinzento e deprimente? Veja como o nevoeiro rola pelas ruas, entremostrando
as casas desbotadas. Haverá algo mais irremediavelmente prosaico e
material? De que me vale ter essas faculdades, doutor, quando não há onde
exercê-las? O crime é banal, a existência é banal, e as outras qualidades,
exceto as que sejam banais, não têm função na face da terra.
Abri a boca para contestar essa tirada, quando, após uma decidida pancada
na porta, a nossa senhoria entrou com um cartão de visita numa salva de
bronze.
— Uma jovem deseja vê-lo — disse ela, dirigindo-se ao meu companheiro.
— Srta. Mary Morstan — leu ele. — Hum! Não me lembro desse nome. Diga à
jovem que entre, sra. Hudson. Não se retire, doutor. Prefiro que fique aqui.